segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Memórias de 1º de maio de 1994 - a morte de Ayrton Senna

O fatídico 1º de maio de 1994, começou com um sabor amargo para quem gostava de automobilismo. Na véspera e na antevéspera, a Fórmula 1 fora sacudida por dois acidentes impressionantes – um, felizmente, sem muita gravidade. O outro, infelizmente, fatal.

As pancadas de Rubens Barrichello e Roland Ratzenberger mexeram profundamente com o íntimo de um piloto em especial: Ayrton Senna, pole position pela 65ª vez na carreira, resolveu tomar atitudes que poucos pilotos fariam em seu lugar. Preocupou-se com o colega brasileiro. Chocou-se com a morte brutal do austríaco, inclusive visitando o local do acidente durante a bandeira vermelha – o que lhe custou uma advertência verbal da FIA. 



E providenciou o pavilhão austríaco e pôs no bolso do macacão para fazer uma homenagem a Ratzenberger.


 Sena iria fazer uma homenagem a Ratzenberger se ganhar en Imola 1994


O acidente de Rubens Barrichello, Imola 1994

O acidente de Roland Ratzenberger

Aquela noite do dia 30, segundo relatos, foi péssima – em que pese o aniversário do fisiologista e nutricionista Joseph Leberer, amigo de Ayrton. Galvão Bueno contou que Betise Assumpção, então assessora de imprensa do piloto brasileiro e futura sra. Patrick Head (hoje os dois estão separados), o chamou pra um canto e disse que Frank Williams queria conversar com ele.

“Você acha que Ayrton vai correr?” – perguntou o dirigente.

“Frank, se você conhece o piloto que tem, não o teria contratado. Não só o Ayrton vai pra corrida como vai pra ganhar”, rebateu Galvão.


Ayrton Senna e Frank Williams, 1994
A afirmativa do narrador da Globo não convenceu muito a Frank Williams, que pediu a Galvão que chamasse Senna ao seu quarto para uma conversa reservada, depois do jantar. “Mas tem que ser até as 23h. Depois, eu me ‘desligo’”, contou Frank.

Ayrton atendeu ao chamado e foi ao hotel conversar com seu patrão. O que foi dito, nunca se soube. Mas Reginaldo Leme afirmou que Frank Williams teria dito o seguinte a um amigo:

“Tenho medo que ele se negue a correr.”

Ayrton foi para o autódromo e como as imagens feitas pelo cinegrafista francês Armand Deus, que trabalhava para a Globo na época acabaram mostrando mais tarde, a fisionomia do tricampeão era preocupada, tensa. 



A corrida começou e o rosário de incidentes também. A Benetton de J.J. Lehto ficou estática na largada e a Lotus do português Pedro Lamy acertou em cheio a traseira do bólido parado. Safety Car na pista e procissão por cinco voltas até a retirada dos destroços, que não foram poucos.


O acidente de JJ Lehto, Imola 1994
Bandeira verde e Senna tratou de impor sua liderança com razoável vantagem a Michael Schumacher, que tinha 20 pontos no campeonato. O brasileiro, nenhum. Por isso ele buscava vencer. Não só para mostrar àquele alemãozinho queixudo e atrevido quem é que dava as cartas ali. Mas também para tirar um peso das costas e homenagear Ratzenberger.



Até o início da 7ª volta…



O acidente e a pancada seca, fatal, não foram consequencias de um erro. Senna, como se soube depois, foi traído por uma quebra da coluna de direção, que o fez bater a 216 km/h no muro de proteção. 





E para absoluta falta de sorte, uma peça da suspensão dianteira, com uma ponta semelhante a de um estilete, perfurou a guarnição da viseira do capacete amarelo com detalhes em verde e azul, marca registrada do tricampeão. Resultado: um ferimento de extrema gravidade na base do crânio do piloto.





Esse ferimento, do qual ninguém tinha conhecimento até então, é que foi determinante. Recordo que Galvão disse um “mexeu a cabeça” logo depois da batida. E para mim, aquele foi o último suspiro de Ayrton Senna da Silva.

Evidentemente que o $how não podia parar e houve aquela história do resgate, da traqueostomia, do helicóptero pousando na pista para levar Senna ao Maggiore – e também do Larrousse de Erik Comas que deixou os boxes autorizado não se sabe direito por quem, e que quase bateu no aparelho.



Comas freou, desviou, voltou ao boxe. O que ele viu, também não se sabe. Mas ele não voltaria àquele circo de horrores no domingo.

A corrida voltou a ser disputada. Schumacher venceu, com Nicola Larini em segundo e Mika Häkkinen em terceiro. O pódio foi uma das coisas mais sem graça que eu tinha visto na minha vida. Todos com fisionomias soturnas, azedas.

E restou esperar. A transmissão acabou, Galvão Bueno, visivelmente emocionado com o acidente do piloto com quem ele convivera mais intimamente por uma década inteira, segurou o quanto pôde o choro. E a essa altura do campeonato, todo mundo já estava mobilizado pra ir a Bolonha acompanhar o estado de saúde de Ayrton Senna. Roberto Cabrini, então na Globo, partiu célere para a cidade da região da Emilia Romagna. De Londres, Pedro Bial foi deslocado para a Itália.

Pouco a pouco, as notícias vinham. O quadro era desalentador, de extrema gravidade. Às 18h31 locais, 14h31 no Brasil, o anúncio:

“Morreu Ayrton Senna. Uma notícia que jamais gostaríamos de dar.”

A Fórmula Uno, que abria a temporada naquele domingo em Brasília com a realização de duas provas, só teve a primeira, vencida por Beto Giorgi. A segunda foi cancelada: os pilotos, enlutados, deram uma volta em procissão lenta e recolheram-se aos boxes em pranto convulso.

Havia também o Sul-Americano de kart em Florianópolis. Lá estava Nelson Piquet, o tricampeão, acompanhando o filho Nelson Ângelo, então com nove anos, numa disputa da categoria Cadete. Certa hora, um gaiato gritou.

“Piquet, teu inimigo se f*!”

O tricampeão respondeu na medalhinha: “Não era meu inimigo não, viu? Era concorrente. Não confunda as coisas.”

Depois, Piquet falou para o Fantástico e em sua entrevista, além de reconhecer o talento de Ayrton Senna, suspeitou de uma quebra na suspensão da Williams. Acabou, antes mesmo de conversar com a equipe de reportagem, flagrado pelas câmeras da Globo derramando uma discreta lágrima.


Ayrton Senna e Nelson Piquet, 1986

Sobre as homenagens, quem viu sabe. Ninguém neste país mereceu do povo brasileiro tamanha manifestação como a que recebeu Senna, desde que o féretro começou no Aeroporto de Cumbica, passando pelas ruas de São Paulo, pelo velório na Assembléia Legislativa e pelo enterro no Cemitério do Morumbi.



São Paulo parou. O Brasil parou. E chorou.


A Fórmula 1 seguiu seu caminho. Anos se passaram e depois de 1º de maio de 1994, nenhuma vida foi sacrificada em nome do automobilismo. A segurança passiva dos carros mudou. A paixão do torcedor brasileiro talvez tenha diminuído, e muito.



Por isso, muita gente nunca mais acompanhou as manhãs de domingo como se fazia até aquela data. Muito provavelmente porque só as vitórias de Senna seriam capazes de resgatar, a cada corrida de Fórmula 1, o orgulho de um país espiaçado pelas intensas crises sociais, econômicas, políticas e ideológicas.



Fonte: http://sportv.globo.com/platb/amilporhora/tag/15-anos/

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